Linkin Park - Breaking the habit

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quinta-feira, 12 de maio de 2016


 

Carta de um cão ao seu dono

 
   
Olá,


 
Eu sou aquele que sempre lhe espera. O seu carro tem um som especial, e eu posso reconhecê-lo entre mil. Os seus passos têm um timbre de magia, eles são música pra mim. A sua voz é o sinal maior do meu momento feliz e às vezes você nem precisa falar nada.
 
Quando sinto sua tristeza, eu tento te fazer sorrir. Se vejo que está alegre, como isso me faz feliz! Eu não sei o qual é o melhor aroma no ar. Só sei que o seu perfume é o melhor. De algumas presenças eu gosto, de outras não. Mas a sua presença é a que movimenta os meus sentidos.
 
O seu olhar é um raio de luz quando percebo o seu despertar. As suas mãos sobre mim têm a leveza da paz. E quando você sai, tudo é vazio outra vez. E eu volto a te esperar sempre e sempre. Até você chegar novamente.
 
Esperar pelo som do seu carro... Pelos seus passos... Pela sua voz... Pelo seu cheiro... Pelo seu repouso sob minha vigília à noite... Pelo seu olhar... Pelas suas mãos fazendo carinho em mim. Eu sou aquele que te espera... Eu sou seu cão! E sou feliz por ser assim!
 
Nunca lhe pedi para me deixar bonito, nem para me adestrar... Também não lhe peço bons alimentos ou me levar no veterinário, nem isso nem coisa alguma... Se não tiver uma correia bonita, pode me colocar num laço ou deixa-me solto... Prometo que não vou embora... Se não puderes me comprar uma casinha, me conformo com um trapinho no chão... Aonde quer que você me colocar, eu sempre vou te proteger.
 
Não me corte o rabinho, nem me afine as orelhas. Prometo que serei fiel quando tiver que te defender...  Se eu destruir algo, desculpa-me, é que não sei o que faço quando estou brincando com as suas coisas, não conheço o valor dos seus objetos e não estrago por má intenção... O que lhe peço é um carinho de vez em quando em mim, e um pedacinho de pão, o demais, me dê apenas se for de sua vontade.
 
Se eu soubesse falar, quantas palavras bonitas eu diria a você... Se você soubesse como fico feliz quando passeio contigo, mesmo que você não perceba, eu fico muito feliz!
 
E se já estou velho, e lhe dei meus melhores anos, não me deixe na rua... E, se lhe causei algum dano, com esta lágrima que vê brotar de meus olhos, peço-lhe perdão...
 
Sim, eu sou um animal, sou um cachorro criado por Deus, porém também os cachorros sentimos e temos coração... Chegará o dia, em que partirei dessa vida, e quero que saiba que lá no céu dos cães, eu sempre serei grato por tudo o que você fez por mim, e principalmente pelos anos que passamos juntos...
 
Com carinho,
Seu cão.
   
 
Autoria Desconhecida

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

TEMPO LIVRE



A questão do tempo livre — o que as pessoas fazem com ele, que chances eventualmente oferece o seu desenvolvimento — não pode ser formulada em generalidade abstrata. A expressão, de origem recente — aliás, antes se dizia ócio, e este era privilégio de uma vida folgada e, portanto, algo qualitativamente distinto e muito mais grato, opõe-se a outra: à de tempo não-livre, aquele que é preenchido pelo trabalho e, poderíamos acrescentar, na verdade, determinado de fora.
O tempo livre é acorrentado ao seu oposto. Essa oposição, a relação em que ela se apresenta, imprime-lhe traços essenciais. Além do mais, muito mais fundamentalmente, o tempo livre dependerá da situação geral da sociedade. Mas esta, agora como antes, mantém as pessoas sob um fascínio. Decerto, não se pode traçar uma divisão tão simples entre as pessoas em si e seus papéis sociais. Em uma época de integração social sem precedentes, fica difícil estabelecer, de forma geral, o que resta nas pessoas, além do determinado pelas funções. Isso pesa muito sobre a questão do tempo livre. Mesmo onde o encantamento se atenua e as pessoas estão ao menos subjetivamente convictas de que agem por vontade própria, isso ainda significa que essa vontade é modelada por aquilo de que desejam estar livres fora do horário de trabalho.
A indagação adequada ao fenômeno do tempo livre seria, hoje, esta: “Com o aumento da produtividade no trabalho, mas persistindo as condições de não-liberdade, isto é, sob relações de produção em que as pessoas nascem inseridas e que, hoje como antes, lhes prescrevem as regras de sua existência, o que ocorre com o tempo livre?” Se se cuidasse de responder à questão sem asserções ideológicas, tornar-se-ia imperiosa a suspeita de que o tempo livre tende em direção contrária à de seu próprio conceito, tornando-se paródia deste. Nele se prolonga a não-liberdade, tão desconhecida da maioria das pessoas não-livres como a sua não-liberdade em si mesma.
ADORNO, T.W.